Produção de conteúdo independente sobre futebol na internet cresce, e jornalistas esportivos e veículos de comunicação precisam se adaptar a nova era da comunicação
Os veículos de comunicação tradicionais historicamente tiveram o monopólio da notícia e da opinião, mas nas últimas décadas ocorreu uma mudança de paradigma com o crescimento da internet e mais recentemente com o surgimento das redes sociais. As TVs, Rádios e Jornais ganharam a concorrência das mídias independentes que produzem conteúdo na web. E não foi diferente no mundo esportivo, onde os meios de comunicação tiveram que se adaptar a esta nova era e possibilitou poder de fala para torcedores através da tecnologia.
Muitos produtores de conteúdo independente, sendo jornalistas ou torcedores, conquistaram seu público e relevância na internet. Com isso, eles conseguem entrada com jogadores e dirigentes, por exemplo. Em entrevista ao “Cara a Tapa”, canal no Youtube de Rica Perrone, o treinador Eduardo Barroca revelou que teve no início deste ano uma reunião com influenciadores digitais do clube.
Em 2021, uma iniciativa do Globoesporte.com foi contratar influenciadores de 12 times grandes do Brasileirão para produzir conteúdo digital para as plataformas do Grupo Globo. Apesar de produtores de conteúdo muitas vezes competirem com os veículos tradicionais, é possível um somar com o outro nessa nova era da comunicação.
Um dos primeiros influencers no futebol na era digital foi o DoentesPFutebol, que tem mais de 569 mil seguidores no Twitter e 1,3 milhão de seguidores do Instagram. A página tem postagens diárias sobre futebol e comentários em tempo real dos jogos de times brasileiros e, especialmente, dos grandes times da Europa.
Felippe Garcia, de 37 anos, explica como surgiu a ideia de produzir conteúdo na internet e acredita ser pioneiro nessa forma de trabalho ao lado de Victor Quintas, outro administrador da página.
“O DPF era uma comunidade no Orkut. Um local onde a gente vivia falando de futebol entre amigos ali no fórum. A comunidade teve início em 2004. Em 2012, vendo que o Orkut tinha data para seu fim próximo, resolvi (Felippe) então montar um projeto para falar de futebol ‘aqui fora’… de forma profissional. Montei então a marca, e iniciamos pelo Facebook. Com uma equipe de membros do Orkut, que quiseram participar do projeto”, disse Felippe.
“Somos os primeiros influenciadores do futebol, sem dúvidas. Na época que nem chamavam de influenciadores, na real. Minha primeira visão, era de que as TVs não trabalhavam bem suas redes sociais. Então entramos ‘para ensinar’. E percebemos que muitos passaram a trabalhar de uma forma parecida”, concluiu.
Além do trabalho nas redes sociais, o DoentesPfutebol tem um site próprio sobre futebol e um guia de TV, que mostra onde assistir aos jogos do dia. A página comandada por Felippe Garcia e Victor Quintas é um case de sucesso em termos de produção de conteúdo na internet no meio esportivo e conquistou o respeito de jornalistas e até de jogadores.

“Imaginávamos conversar com jornalistas famosos. Além de jogadores. E é algo que nos surpreende até hoje. É nosso prazer ter ídolos interagindo conosco. Um dos nossos combustíveis. Temos o Ronaldo fenômeno nos seguindo no Instagram, por exemplo. É um prêmio. Além de ver jornalistas felizes quando nós passamos a seguir”.
PRODUÇÃO DE CONTEÚDO EM FORMA DE HUMOR
O DoentesPFutebol adota uma maneira mais séria para falar de futebol na internet, mas nem todas as páginas são assim. Muitos produtores de conteúdo optam por ter um perfil de mais humor e brincadeira para retratar o esporte mais conhecido do planeta bola. É uma forma de falar de futebol de forma descontraída para engajar e informar os torcedores.
A página Londrina Mil Grau, muito conhecida pelo torcedor londrinense, atualmente tem mais de 15 mil seguidores no Facebook e posta notícias do Londrina Esporte Clube em forma de humor, com uma pegada descontraída. Pedro Felipe, que criou a página com menos de 13 anos, tinha como inspirações outras páginas como Desimpedidos e Mil Graus de outros times.
"Eu criei a página em 2014, foi ideia minha inspirada em outras páginas que já existiam. O intuito era sempre ajudar o Londrina a crescer, e eu também via como hobby para mim. Eu sempre gostei, fiz sempre de coração, já teve vários adms para ajudar e hoje tem o Marcos. Eu sempre gostei de fazer graça e tinha inspirações na época, como Desimpedidos e Mil Grau de outros times. Eu vi uma coisa que eu me identificava e comecei a fazer", disse Pedro.
Marcos Costa, que administra a página ao lado de Pedro desde 2018, destacou que o público mais velho às vezes se incomoda com o conteúdo postado pelo Londrina Mil Grau, mas ele leva isso com naturalidade. Além disso, o jovem de 20 anos vê a interação com o público como um combustível para seguir com a página.
“O público mais velho acaba levando muito a sério os posts, estão no direito deles, a gente já publicou coisa que a galera ficou de ‘mimimi’ nos comentários, mas o nosso público é um público mais jovem que vem agregando bastante e ajudando a página compartilhando, comentando, curtindo. E essa interação é bacana, tem alguns que eu respondo e dão algumas ideias legais. Isso é fundamental, acaba nos engajando para continuar com a página. É massa essa interação, você ver o público reagindo ao seu meme é fantástico”, destacou o jovem de 20 anos.

IMPORTÂNCIA DAS REDES SOCIAIS PARA O JORNALISTA ESPORTIVO
Atualmente, muitos jornalistas esportivos produzem conteúdo independente em suas redes sociais e conquistam um público grande que os acompanha. Alguns conseguem se manter financeiramente com seus canais no Youtube, outros usam essa ferramenta como hobby. É o caso do comentarista da TNT, Bruno Formiga.

Muito atuante em redes sociais como Instagram e Twitter, Bruno Formiga também tem um canal no Youtube com mais de 240 mil inscritos. O canal já soma mais de 16 milhões de visualizações. Apesar do grande sucesso, ele vê a ferramenta apenas como um segundo emprego.
“No meu caso é um hobby, tem assuntos que a TNT não consome e eu gosto de falar, ali é mais um lugar que eu posso produzir e falar, além de monetizar. Mas eu não preciso do Youtube hoje para viver, é completamente um extra, me monetiza legal, mas não é meu ganha-pão. Da galera que eu conheço dos que trabalham em veículos de comunicação, eu não vi nenhum entrando por necessidade. A produção nas redes sociais é completamente extra, um segundo emprego, que eu não preciso dele. É um extra total”, declarou o comentarista.
Fernando Campos, comentarista do canal TNT em jogos da Champions League, vê as redes sociais como ferramentas fundamentais para o seu trabalho de jornalista esportivo. Muito atuante nas redes sociais, especialmente no Twitter, ele tem um canal no Youtube e um Podcast chamado “Tempo de Bola”.
“É fundamental para mim, quem não é visto não é notado. Eu sou bastante ativo nas redes sociais, especialmente no Twitter. Eu sou bastante ativo lá, tenho um público bem grande que curte meu trabalho e ali vou dando minhas opiniões, fazendo minhas análises. Eu fiz um canal no Youtube, que até está um pouco parado por problemas técnicos de computador, mas foi muito importante para dialogar com o público que gosta do meu trabalho e fazer com que outras pessoas fossem impactadas com o meu trabalho”, declarou o comentarista de 31 anos.

“Eu acho que o jornalista esportivo não deve ser soberbo ao ponto de achar que não deve estar presente nas redes sociais, tem que analisar a realidade – é um universo digital que já está estabelecido que deve ser explorado e só vai crescer, então isso não se resume somente a um youtuber. Hoje, temos diversos jornalistas de sucesso que estão presentes nesse universo: Mauro Cezar, Bruno Formiga, Vitor Sergio Rodrigues, diversos amigos dos canais Disney, que também tinham canais relevantes fortíssimos, mas tiveram que parar um outro por conta de questões contratuais com a empresa”, disse Fernando Campos.
Produção de conteúdo independente não serve apenas para torcedores e jornalistas renomados, mas é uma ótima alternativa para quem está iniciando no jornalismo esportivo. A jovem Lara Pinheiro, de 19 anos, que mora em Recife e está no 4º período de jornalismo, é muito atuante nas redes sociais e tem mais de 6 mil seguidores no Instagram, onde fala de futebol, sobretudo do PSG.
Com bom engajamento nas redes sociais, a jovem estudante de jornalismo já teve algumas conquistas profissionais pela produção de conteúdo que realiza em suas redes sociais, como por exemplo cobrir uma partida do Sport a convite da própria organização do Campeonato Brasileiro.
Em seu Instagram, Lara Pinheiro criou o quadro “Além dos Refletores”, onde entrevistou jogadores de divisões menores e mostrou a dura realidade dos atletas que estão longe do glamour dos principais campeonatos do Brasil.
“Não é algo que você vai conseguir muito rápido e se for rápido está sendo estranho. Mas eu já consegui entrevistar o Ricardo Rocha, ex-zagueiro da seleção brasileira, e agora recentemente eu tive uma conquista incrível. Ano passado eu criei um quadro no meu Instagram que se chamava “Brasileirão em um minuto”, onde eu resumia toda a rodada do Campeonato Brasileiro. Acabou que o Instagram gostou muito, que é o Choro Futebolístico, aí eles me contrataram para fazer esse quadro no Instagram deles. Então eu não faço mais para o meu, eu faço para o deles, assim como outros vídeos que eu também faço”, disse a jovem estudante de jornalismo.

“E uma outra conquista foi que eu fui convidada pelo próprio Brasileirão para cobrir um jogo, fazer bastidores do jogo do Sport aqui em Recife. Então todo esforço tem resultado, independente do que você esteja fazendo, principalmente conteúdo na internet porque tem uma visibilidade muito boa, muito boa mesmo”, completou.
A produção de conteúdo independente sobre futebol já é realidade no Brasil e no mundo, seja para jornalistas consagrados, influenciadores digitais ou até mesmo para quem está iniciando no jornalismo. Não quer dizer que os veículos de comunicação tradicionais e programas esportivos vão acabar, mas é um novo momento da comunicação no esporte em que todos precisam se adaptar.






